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Ele já
escalava o Kilimandjaro, na África, o vulcão
Merapi, na Indonésia, subiu os 6.137 metros do
Island Peak, no Everest, enfrentou tempestades de neve
o Aconcágua, fez a travessia por terra do Tibet
ao Nepal e agora se prepara para escalar o cume mais
alto do continente europeu. Para o advogado mineiro
Dênio Moreira de Carvalho Júnior, a vida
tem se dividido entre as audiências e os tribunais,
as muitas horas de trabalho no escritório, em
Belo Horizonte, e as aventuras radicais pelo mundo afora.
Há nove anos ele se apaixonou pelo alpinismo
e, desde então, tem participado de expedições
que misturam riscos, desafios quase intransponíveis
e paisagens inacreditáveis. A mais importante
dela ainda está por acontecer. Dênio acaba
de receber um convite para integrar o grupo de alpinistas
que acompanhará a esquiadora Megan Carney ao
cume do Everest em agosto próximo. Bicampeã
mundial de esqui radical, ela poderá ser a primeira
mulher a descer o cume esquiando.
Casado, pai de dois filhos e 41 anos, o advogado se
prepara para as expedições com um programa
rigoroso de condicionamento físico. Levanta-se
diariamente às 5h30, faz exercícios de
musculação e alongamento e treina correndo
subidas íngremes, às vezes com uma mochila
de 15 quilos nas costas. O condicionamento físico
é vital, mas não é só dele
que depende o sucesso das expedições.
Conviver com o isolamento, as tempestades e o medo exige
equilíbrio emocional. E é o desafio de
Ter que adquirir esse equilíbrio que tem ensinado
ao alpinista – e ao advogado – as maiores
lições.
Como você se interessou pelo alpinismo?
Aconteceu por acaso. Eu estava planejando uma viagem
pela Indonésia, quando um amigo que organizava
minhas viagens sugeriu: “Já que você
vai à ilha de Yogijacarta, por que não
sobe o Vulcão Merapi? É o vulcão
mais alto da Indonésia e você vê
o sol nascer lá de cima.” Assim fui, literalmente,
jogado numa fria, porque estava gelado. A subida foi
perigosa e eu não estava preparado. Deixei minha
mulher no hotel e fui para uma escalada noturna sem
estar minimamente equipado. Cheguei a me perder no escuro,
e passei muito frio. Quando chegamos ao cume, apesar
da magnitude da beleza, nada pude aproveitar. Mas ,
dois dias depois, quando decolamos da ilha e vi pela
janela do avião o local por onde tinha andado,
bateu uma emoção muito forte. Foi uma
mistura do que eu havia vivido ali com a beleza das
imagens e, naquele momento, eu me apaixonei pelo alpinismo.
O que leva uma pessoa a se apaixonar por uma
atividade que envolve tantos riscos e obstáculos?
Não sei ao certo. Tenho lido muitos autores em
busca de uma resposta mais precisa, mas sei que esta
é uma questão que se situa no campo das
emoções. Vemos como é difícil
explicar racionalmente quando nos apaixonamos por alguém.
É algo muito intenso, alinhavado em várias
sutilezas. Ocorre o mesmo com o alpinismo. Muitas coisas
me atraem nele e elas variam de montanha para montanha.
Posso dizer que cada uma das expedições
de que participei acrescentou novas lições
à minha vida.
Do ponto de vista emocional, o que significa
alcançar o topo de uma montanha? Como é
se confrontar com você mesmo?
Esta é uma das principais questões em
jogo, a de se confrontar consigo mesmo. Há uma
batalha interna enorme do ponto de vista emociona. Na
longas caminhadas de aproximação, muitas
vezes em meio a paisagens remotas, cada um é
obrigado, em primeiro lugar, a conviver consigo próprio.
É um exercício de autoconhecimento. Em
meio ao esforço físico, à submissão
aos elementos da natureza, em meio à solidão
e às incertezas de se alcançar os objetivos,
você passa a entender melhor quem você é.
A natureza nos submete as lições de humildade
o tempo todo. Coloca à prova nossa perseverança,
a união do grupo, a capacidade de cada um de
se superar. E isso tudo é digerido emocionalmente
na amplidão da paisagem ou na solidão
da barraca à noite. É um trabalho mental
e emocional intenso. Encontrei um alpinista no momento
em que descia de sua primeira conquista do cume do Everest.
Ele estava devastado fisicamente e, quando lhe perguntei
o que tinha sido mais difícil para conquistar
o Everest, ele respondeu sem titubear: “The mental
work!” , ou seja, o trabalho mental.
Como você convive com emoções
como o medo?
O medo é um sentimento marginalizado. Ninguém
gosta muito de demostrá-lo ou assumi-lo. Mas,
sem dúvida, é um sentimento que revela
muito sobre nós mesmos. A questão não
é ser inconseqüente ou não Ter medo
– é lidar com ele. Se você pára
e tenta entender o que está lhe amedrontando
numa expedição, você se localiza
melhor. Você está com medo da altura, das
quedas? Ou é medo de falhar, de fracassar, de
cometer erros? Acho que assim, tentando nos entender
a partir dos nossos medos, dá para aprender muito
sobre nós mesmos.
O autocontrole que o alpinismo exige contribui
para seu trabalho como advogado?
O autocontrole é, seguramente, um dos maiores
benefícios que você extrai do alpinismo.
Como advogado, preciso de Ter autocontrole no meu dia-a-dia.
É uma profissão na qual se lida com situações-limite
o tempo todo. Somos sufocados pelos prazos processuais,
enfrentamos muitos embates por nossos clientes. São
verdadeiras batalhas travadas nos processos, nas audiências
e nos tribunais e é essencial Ter cabeça
fria para se pensar melhor. Se você desenvolveu
bem seu autocontrole, está mais habilitado para
Ter sucesso nessa atividade.
Quais foram alguns momentos particularmente
difíceis e o que você aprendeu com eles?
Eu enfrentei a Segunda pior tempestade da última
década, a 6.300 metros de altura no Aconcágua.
Ficamos 30 horas presos na barraca, açoitados
por ventos de até 150 quilômetros por hora,
com uma temperatura de 40 graus negativos. Nosso grupo
preparava-se para atingir o cume no dia seguinte, quando
nosso líder dirigiu-se a cada uma das barracas
de nossa expedição e nos alertou para
retirar as pedras de menos de dois quilos dos muros,
que tínhamos construído para proteger
as barracas do vento. Ele disse: “Pedras de menos
de dois quilos vão voar.” Naquela oportunidade,
conheci algo de uma violência que não podia
imaginar: a fúria do vento. É apavorante.
O barulho é o de uma turbina de um Boeing, fazendo
a reversão para frear numa pista curta. E aos
40 graus negativos o caos se estabelece em sua barraca:
a água vira pedra, a comida vira pedra, as baterias
e pilhas congelam e você fica na escuridão.
Aí você só tem uma certeza: desta
não escapo! Você reaprende ali que é
mortal, que é frágil e faz a revisão
da sua vida, do que é importante e o que não
é. Vê o quanto ama sua família.
E promete que, se sair vivo, vai vender todo o seu equipamento
de alpinismo e nunca mais, por vontade própria,
irá se meter numa situação dessas.
Mas,. Como disse a Silvana, minha mulher, é como
o parto: depois que passa, a gente se esquece da dor
e acaba tendo outros filhos.
E a convivência com o isolamento e o silêncio?
Houve ocasiões em que de fato experimentei uma
sensação de isolamento muito grande. Foi
quando organizava expedições particulares
pelo Himalaia, apenas com um guia local e um carregador.
Há momentos em que você se sente um pontinho
minúsculo perdido no planeta. Acampando em pontos
remotos, o silêncio e a escuridão tornam-se
quase palpáveis e, nesses momentos, um mergulho
em nós mesmos é quase inevitável.
A leitura e a música são o antídoto
quando a solidão fica muito grande.
Como é a convivência com os outros
integrantes das expedições?
Fiz grandes amizades graças à convivência
nas montanhas. Wally Berg, alpinista americano, diz
que os laços que se formam nessas expedições
só se comparam àqueles criados entre soldados
que lutam juntos. Há um senso genuíno
de companheirismo, de lealdade e dedicação.
Dividimos momentos que vão da dor à conquista.
E há sempre o compromisso de que um companheiro
não solta a corda que dá segurança
ao outro, não abandona o outro jamais. Formam-se
laços de amizade muitos fortes.
E a natureza? Como é percorrer paisagens
que devem chegar a intimidar?
São paisagens tão diversas e de uma beleza!
Imagine percorrer o altiplano tibetano, na região
de Humla – considerada uma das mais remotas do
planeta, na aproximação do Monte Kailash.
Do meio do deserto, a 4 mil metros de altitude, descortina-se
o lago sagrado Maranasarovar, cujas águas mudam
de cor: ficam verdes, azuis, vermelhas e douradas, de
acordo com as horas do dia. Imagine também o
que é encontrar vilarejos encravados na cordilheira
do Himalaia, onde as pessoas vivem a mesma rotina que
viviam na Idade Média. ‘E impressionante.
Devo reconhecer que há momentos em que a imponência
e a grandiosidade assustam. Debruçar-nos sobre
o paredão sul do Aconcágua, por exemplo,
dá um frio na espinha. Mas percorrer essas paisagens
para mim é um privilégio.
Enfrentar os obstáculos da natureza ajuda
a conviver com os problemas do dia-a-dia?
Sim. Ensina a relativizar os problemas, a dimensionar
melhor as dificuldades e lidar com o estresse da vida
profissional. Um juiz mal humorado, uma audiência
que atrasa ou um engarrafamento de trânsito ficam
do tamanho que realmente são. Com certeza, não
são problemas tão grandes quanto uma tempestade
de neve a 6,3 mil metros de altura no Aconcágua.
Quais de seus valores mudaram mais profundamente
com o alpinismo?
Aprendi uma coisa que hoje considero essencial: não
deixar de dar atenção a alguns detalhes
da nossa vida com os quais a gente se acostuma e esquece
de valorizar. Uma expedição às
montanhas faz você se lembrar do conforto que
é Ter uma cama para dormir, Ter água encanada
em casa, com banheiro e banho ao seu alcance todo o
tempo. Ou de poder falar com as pessoas que são
importantes para você, tê-las ao seu alcance
em segundos, do outro lado da linha telefônica.
A gente vive se esquecendo de que a vida do ser humano
começou sem nenhum desses confortos, que antes
era o homem versus os elementos naturais. Nós
nos esquecemos de que o homem tem uma capacidade extraordinária
e que o planeta é uma grande montanha, onde todos
os seres humanos são companheiros de expedição.
Por falar em expedição, qual será
a próxima?
Sigo em julho para escalar o Elbrus, na Rússia,
o cume mais alto do continente europeu. É uma
montanha linda, com cumes gêmeos, na cadeia do
Cáucaso, entre o Mar Negro e o Mar Egeu. Mesmo
no verão, esperamos escalar o cume a uma temperatura
de 20 graus negativos.
E o convite que você acaba de receber
para integrar uma expedição de peso ao
Everest?
É um convite que vai depender de patrocínio
para que eu possa aceitá-lo, mas representa a
realização do sonho de todo alpinista.
Fui chamado para integrar a equipe de apoio de uma expedição
ao Everest chamada Extreme Courage – Coragem Extrema,
que fará parte da comemoração dos
50 anos da conquista do Everest e acontecerá
no final de agosto. Wally Berg, o líder da expedição,
é um dos mais completos alpinistas do mundo.
Ele vai guiar a esquiadora Megan Carney ao cume do Everest
para tentar um feito inédito: ela poderá
ser a primeira mulher do mundo a descer o cume esquiando.
A Megan é bicampeã mundial de esqui radical.
Se for bem-sucedida, a expedição entrará
para a história do alpinismo. Tem tudo para se
tornar um épico das montanhas. É como
diz o Wally: “Nossa missão é simples:
é levarmos a Megan lá em cima. Depois
o show é dela – e ela esquia muito bem!
Engraçado, não é? Com esta simplicidade,
o impossível parece realizável. |